domingo, 7 de julho de 2013

Invisibilidade Lésbicas, Fetiche e Lesbofobia

Leonarda Lisboa

A sexualidade das mulheres que não são heterossexuais é constantemente diminuída (mais ainda que a das mulheres heterossexuais): enquanto o homem gay "não tem salvação", a mulher lésbica ou bissexual "ainda não encontrou um homem de verdade", "tá tentando chamar atenção" ou "está só experimentando". Ou, claro, "queria ser um homem".

A nossa tão (machistamente) falada ausência de desejo sexual torna o sexo lésbico sem sentido: por que outro motivo uma mulher faria sexo, se não para agradar um homem? Como pode ser prazeroso o sexo entre duas mulheres se "falta alguma coisa"? Só podemos nos interessar por outras mulheres se tivermos tido algum "trauma com homens", é o que nos dizem; por nenhum outro motivo abriríamos mão do privilégio da heterossexualidade.

Podemos, é claro,fingir que abrimos mão: existe, afinal, algo mais fetichizado do que o sexo lésbico? Uma fantasia mais comum do que aquela em que o homem vê duas mulheres juntas, resolve interferir e só então a experiência fica completa? A ideia de que duas mulheres juntas são um óbvio convite a um ménage à trois é, além de desrespeitosa, cansativa. E é a "menor" das violências a que estamos sujeitas: numa busca rápida no Google, encontramos inúmeros casos de lésbicas, muitas vezes casais, agredidas na rua ou dentro de casa, por desconhecidos ou pelos próprios familiares.

Tal obsessão heteronormativa chega a extremos: não são raros os casos de estupro corretivo de mulheres lésbicas e bissexuais que pretendem, como o nome diz (porque quem denomina tal prática são seus praticantes e "apoiadores"), corrigir a orientação sexual dessas mulheres, mostrar a elas o que é certo em termos de práticas sexuais e ensiná-las a não mais errar – e até tais casos de abuso e violência são invizibilizados.

Até mesmo na comunidade LGBT não é incomum a descrição incrivelmente preconceituosa do sexo lésbico como inferior, sim inferior, ao sexo gay " sem graça, como poderia haver sexo sem penetração?!" e o gouinage praticado por homens homo é visto e criticado amplamente por ser uma aproximação ao sexo entre mulheres - UMA ETERNA PRELIMINAR.

Primeiramente devemos lembrar que o sexo lésbico (e todo sexo) existe independente da penetração e que essa fixação pela necessidade de um pênis para viabilizar a relação se baseia no conceito machista de que o pênis é o foco da relação, que o ponto alto de uma relação é a ejaculação masculina - discurso criado para supervalorizar o homem e a fecundação, assim como a procriação e portanto repete a heterormatividade e a binariedade dos gêneros mesmo em relações homossexuais.

Segundo, desconsidera que exista a penetração no sexo lésbico dependendo dos desejos das praticantes, mas mesmo esse é desvalorizado pois só considera válida a penetração com o pênis.

E em terceiro, o gouinage embora derive do francês "lesbianismo" é um termo baseado num conceito machista e unilateral do lesbianismo, é uma prática sexual única e válida, mas que difere do sexo lésbico em sua totalidade, pois o sexo lésbico é amplo e diversificado demais para essa crua comparação com gouinage, que sempre é visto como o "sexo preliminar".

Em uma sociedade heteronormativa e machista a sexualidade da lésbica é fetichizada, ironizada e desprezada; parece pregar ser impossível a felicidade e satisfação feminina sem o masculino. Já dizia Ovídio, na Roma Antiga: "relações entre mulheres não existem" e ainda hoje, de um jeito ou de outro, repetimos esse discurso.

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