sábado, 10 de julho de 2010

CORDEL: O CASO 'ELIZA SAMUDIO' E O MACHISMO TOTAL

O caso Eliza Samudio    /    Que tem chocado o Brasil   /   Emerge como prelúdio   /   De um grande desafio:
Exortar nossa Justiça   /   Pra deixar de ser omissa   /   Ante o machismo tão vil!

Trata-se de um momento   /   De grande reflexão   /   Pois não basta só lamento   /   Ou alguma oração   /   É hora de provocar   /   Propondo um outro olhar   /   Sobre processo e ação

Saiu na televisão   /   Rádio, internet e jornal   /   Notícia em primeira mão   /   Toda manchete é igual:   /   Ex-amante de goleiro   /   (Aquele cheio de dinheiro!)   /   Sumiu sem deixar sinal

Muita especulação   /   - discurso de autoridade-   /   Uns dizem que é armação   /   Outros dizem que é verdade   /   Polícia e delegacia   /   Justiça e promotoria:   /   Fogueira de vaidades!

Mei-mundo de advogados   /   Investigação global   /   Cada um no seu quadrado   /   Falando em todo canal
Subjacente a tudo   /   Um peixe muito graúdo:   /   Androcentrismo total!

A mídia fala em Bruno   /   Eliza e gravidez   /   Flamengo, orgia e fumo   /   -esta é a bola da vez!-   /   Tem muito 'especialista'   /   Em busca de alguma pista   /   Pra ser o herói do mês


E a história se repetindo   /   Mudando apenas o nome   /   Outra mulher sucumbindo   /   Sob ameaça dum homem   /   Uma vida abreviada   /   Cuja morte anunciada   /   A estatística consome   /  

Assim é a violência   /   Lançada sobre a mulher   /   Ela pede providência   /   E cara faz o que quer   /   Mas a Justiça, que é lerda,   /   Machista, 'fazendo merda'   /   Vem com papo de mané

E oito meses depois   /   Da 'denúncia' inicial   /   Que é o feijão com arroz   /   Do distinto tribunal   /   Nadica de nada existe   /   Mas autoridade insiste   /   Que isto, sim, é normal:

"A culpa é do Instituto   /   Que não mandou o exame"   /   - isto soa como insulto   /   e daqueles mais infame-   /   Não era caso de urgência?   /   -tenha santa paciência!-   /   Para que serve um ditame?

A moça buscou amparo   /   Na Justiça do país   /   Agiu correto, é claro   /   E esperou do juiz   /   O tal reconhecimento   /   Sobre o pai do seu rebento   /   Tendo a vida por um triz

Também fez comunicado   /   Ao campo policial   /   Dizendo que o namorado   /   Praticou crimes e tal
Buscou as vias legais   /   Enfrentou feras reais   /   Terá sido este o seu mal?

Mesmo com a delegacia   /   Dita especializada   /   E com toda a apologia   /   De uma Lei avançada   /   Faltou ter a ruptura   /   Com aquela velha cultura   /   De que a mulher é culpada

E o cumprimento legal   /   No caso, muito importante   /   Seria mais um arsenal   /   Para enfrentar o gigante
Mudar a mentalidade   /   De nossas autoridades   /   É fator preponderante

E para que isto ocorra   /   Entre outra alternativa   /   Antes que mais uma morra   /   E o caso fique à deriva
É preciso compreender   /  

Que Justiça é pra fazer   /   Enquanto a mulher tá viva!   /   Sei que nada justifica   /   Que haja tanta demora
E enquanto o caso complica   /   A vítima 'já foi embora'   /   Sem medida protetiva!   /   Sequer prisão preventiva!   /   Quanto inoperância aflora!

Se o exame era necessário   /   À elucidação do crime   /   O Estado-perdulário   /   Neste campo fez regime
Ficando no empurra empurra   /   No velho: ''mulher é burra,   /   e joga no outro time"

Todo crime tem problemas   /   De toda diversidade   /   Assim como há esquemas   /   Também há dificuldades   /   Mas pra mim é evidente   /   Que o machismo presente   /   Premia a impunidade

Machismo compartilhado   /   Por gente de toda cor   /   Do goleiro ao empregado   /   Do primo ao executor
Autoridades também   /   Implicitamente têm   /   Um machismo inspirador   /  

Cada 'doutor' se expressa   /   Centrado no garanhão   /   É o mote da conversa:   /   Fama, grana e traição
Ao se referir a ela   /   Falam da menina bela   /   Que fez filme de tesão

Falta a compreensão   /   Da questão relacional   /   Gênero, classe, profissão   /   Cor e status social   /   
O processo é narrativa   /   Que emerge da saliva   /   Falocêntrica-legal

E ainda que alguns digam   /   "Oh, Eliza, coitadinha"   /   E suas doutrinas sigam   /   Desvendando pegadinhas   /   A escola dogmática   /   Do direito-matemática   /   Perpetua ladainhas

Processo judicial   /   Só serve para punir?   /   Havia tanto sinal...   /   Não dava pra prevenir?   /   E a tal ação civil?   /   Alimentos deferiu?   /   Para o bebê consumir?

É um momento de dor   /   Para a família dos dois   /   O caso é multifator   /   Não basta dar nome aos bois
A lógica policial   /   Cartesiana e formal   /   Festeja tudo depois

Por isso se faz urgente   /   Conjugar gênero e direito   /   Pois um trabalho decente   /   Que surta algum efeito   /   Não se limita a julgar   /   Mas também a estudar   /   O cerne do preconceito

Homens que matam mulheres   /   Em relações de poder   /   Isto tem se dado em série   /   Mas é preciso entender   /   Que subjaz ao evento   /   Um histórico comportamento   /   Que vai construindo o ser

A nossa sociedade   /   Apesar da evolução   /   Reproduz iniquidade   /     E também muita opressão
Homem que bate em mulher   /   - E "ninguém mete a colher" -   /   Sempre foi uma 'lição'

Aprendida por goleiros   /   Delegados, professores   /   Motoristas, marceneiros   /   Pedreiros e promotores
Garçons e malabaristas   /   Médicos e taxistas   /   Juízes e adestradores

Por isto em nossos dias   /   De conquistas sociais   /   De novas filosofias   /   Direitos especiais   /   Não podemos aceitar   /   Justiça só pra apurar   /   Crimes tão excepcionais

Que a Justiça também   /   Sirva para (se) educar   /   Chega deste nhém-nhém-nhém   /   Deste eterno blá-blá-blá   /   A Lei Maria da Penha   /   Existe pra que não tenha   /   Tanta morte a lamentar!!!

Salete Maria
www.cordelirando.blogspot.com

Um comentário:

Salete Maria disse...

Para escutar este cordel visite
http://www.youtube.com/watch?v=RVlsYOCYIPg
na voz da poetisa Dath Haak